Antes uma ação esporádica — aquela pizza no jantar de domingo —, encomendar uma refeição para ser entregue em casa ou no trabalho virou uma constante de muita gente da capital. O almoço da firma, anteriormente no bandejão da empresa ou em um bufê por quilo, agora pode ser feito na mesa do endereço comercial — e com sushi e hambúrguer recém-desempacotados.

O pijama, quem diria, pode virar o figurino de um jantar com pratos vindos do restaurante fino — mas no conforto do sofá de casa. Nem é mais necessário ferver a água de manhã — o cafezinho nosso de cada dia chega de motoca, pronto para ser tomado. O delivery tem mudado (e muito) essas e outras cenas do cotidiano da cidade.

Faz tempo que solicitar comida de fora deixou de ser um ato contra a preguiça de cozinhar. Uma comodidade hoje desfrutada 24 horas por dia, a prática tem crescido com força extraordinária na era digital.

De acordo com a pesquisa Crest, realizada pela GS&NPD em parceria com o Instituto FoodService Brasil, os pedidos movimentaram 20,5 bilhões de reais no país em 2019. “Observamos que o número de encomendas cresce em variadas ocasiões de consumo, como o café da manhã. Não é só no óbvio momento do jantar nos fins de semana”, diz Vólia Simões, gerente de inteligência de mercado da Gouvêa de Souza.

A importância dessas mudanças de hábito se agigantou tanto que até o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) tem estudado como fazer o acompanhamento na próxima Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF).

Muito desse movimento, que afeta até a arquitetura da cidade — prédios comerciais, residenciais e shoppings vêm recebendo adaptações estruturais para se adequar à rotina do trânsito de produtos —, se deve ao crescimento de plataformas que facilitam o serviço pelos smartphones.

É difícil fugir delas. Só no setor digital, os pedidos cresceram 71% em 2019, de acordo com a Crest, ou seja, de 387 milhões para 662 milhões. As encomendas por telefone ainda representam 53% desse mercado, mas estão longe de demonstrar crescimento.

As agregadoras, como são chamados os aplicativos, reúnem em um único lugar um sem-número de restaurantes e outros estabelecimentos culinários, prontinhos, à espera de que você os acione com alguns poucos toques no celular e faça a sua escolha. Se há quem passe horas na Netflix selecionando o que vai assistir, acredite: há quem gaste boa parte do tempo decidindo o que vai comer no iFood, no Uber Eats ou na Rappi.

A mais famosa dessas marcas nacionalmente é o iFood. Nascido em 2011 em São Paulo, transformou-se em um gigante no mundo do delivery após aportes, fusões e aquisições — está presente em 912 cidades do país, conta com 131 200 restaurantes parceiros e atende 26,6 milhões de encomendas por mês (dado de novembro de 2019), além de manter operações no México e na Colômbia. Os números da capital não são divulgados, embora a empresa confirme que está entre seus maiores mercados.

O funcionamento é parecido com o dos outros dois grandes players: ele faz a intermediação do contato entre restaurante e consumidor — e cobra uma taxa por isso. “Temos o compromisso de revolucionar o universo da alimentação e de inculcar o hábito do delivery no brasileiro”, diz o diretor comercial Felipe Crull. De acordo com o iFood, uma pesquisa da Kantar Ibope Media — Monitor Evolution mostra que a empresa foi o maior anunciante em TV do país na categoria serviços entre janeiro e novembro de 2019. Esse fenômeno invade até o terreno da ficção, com o merchandising em novelas como A Dona do Pedaço, sucesso de Walcyr Carrasco, colunista de VEJA, levado ao ar no ano passado.

O iFood se originou do Disk Cook, sua versão, digamos, primitiva criada em 1997. Na época em que pedir comida por telefone se traduzia em encomendar uma pizza, a precursora já fazia o meio de campo entre diversos tipos de estabelecimento e os consumidores — em uma escala muito menor em comparação com a que se vê hoje.

Braço de entrega da plataforma de mobilidade de mesmo nome, o Uber Eats nasceu em São Francisco (EUA) em 2015, chegou à capital no fim de 2016 e atualmente opera em mais de 100 cidades espalhadas pelo território nacional e em outros 36 países — soma 320 000 restaurantes cadastrados ao redor do globo.

“O Brasil ainda pode crescer bastante nesse segmento. Nossa expectativa é que o país se transforme no segundo ou terceiro maior no mundo em entregas de comida on-line. Ainda há muito a fazer”, diz Fabio Tonetto Plein, diretor-geral da empresa no Brasil.

Em 2017, foi a vez de a colombiana Rappi, fundada em 2015, desembarcar por aqui. Presente em outros oito países, todos na América Latina, a plataforma oferece, além do delivery de refeições, a opção “Qualquer coisa”, em que é possível também pedir pratos de lugares não cadastrados no app.

“São Paulo reúne características únicas para que esse mercado seja potencializado, como o trânsito caótico e o dia a dia corrido”, acredita Fernando Vilela, head de growth, responsável pelo crescimento da empresa, que amplia seu escopo e faz até compras em supermercados, modalidade em que os outros dois concorrentes têm ingressado. A Rappi não divulga o número de estabelecimentos parceiros nem o de pedidos.

Se iFood, Uber Eats e Rappi mostram a força no setor, há aplicativos que não são tão conhecidos ainda, como o James, exclusivo das redes de supermercados Pão de Açúcar e Extra, e o Apptite, dedicado à entrega de preparos caseiros. Outras plataformas não conseguiram vingar na capital. O espanhol Glovo, que teve um sopro de um ano de vida, decidiu sair do país em 2019 por causa do “mercado extremamente competitivo”.

Por outro lado, há a expectativa de novidades. A 99, empresa de transporte adquirida pela chinesa Didi Chuxing em 2018, estreou o 99 Food no ano passado. Por enquanto, existem duas operações, uma em Belo Horizonte e outra em Divinópolis (MG).

O delivery pode representar uma alta fatia no faturamento dos restaurantes — de acordo com empresários entrevistados pela reportagem, a parcela pode chegar a 40% do total. Não por acaso, marcas que antes pouca gente imaginava que enviassem quentinhas para casa agora estão realizando essa prática. É o caso do Gero Panini, da grife Fasano, e da casa de grelhados Rubaiyat, ambas de grupos com a maior coleção de prêmios COMER & BEBER em 23 anos de publicação do guia anual de VEJA SÃO PAULO.

“Talvez cinco anos atrás tomássemos um susto ao dizer a palavra ‘delivery’”, confessa Mayra Chinellato, diretora de operações de alimentos e bebidas do Grupo Fasano. “Como vimos outras marcas de luxo se dando muito bem nesse mercado, não tivemos receio em ingressar nele.”

A grande demanda por pratos em domicílio fez ganhar força um modelo de cozinha chamado de dark kitchen. Trata-se de espaço fechado ao público, projetado para o atendimento de entregas, onde podem operar restaurantes já estabelecidos ou grifes que não têm a intenção de dar as caras para a rua. A ideia é reduzir drasticamente custos e tornar a entrega mais eficiente. Uma das principais vantagens está na localização desses pontos, escolhidos estrategicamente para atender a clientela moradora de uma determinada região.

“De dia, as áreas que mais concentram pedidos são espaços com grande número de prédios comerciais e, à noite, onde estão muitos edifícios residenciais. Em alguns bairros mais nobres, há o encontro desses dois cenários, em especial na região que se estende da Paulista à Faria Lima, tendo Moema e Pinheiros como limites”, explica Tadeu Masano, presidente da consultoria Geografia de Mercado. “A demanda por delivery começou nos bairros mais ricos, onde o consumo ainda é mais forte, mas hoje já abrange regiões periféricas”, completa.

Se para alguns empresários esses aplicativos são uma possibilidade de melhorar o desempenho financeiro, há quem revele que o casamento não é uma eterna lua de mel. Uma das maiores críticas é a comissão, que, embora varie de acordo com o contrato firmado, pode chegar perto de 30%, segundo donos de restaurantes. “Como sou exclusivo do iFood, tenho uma das melhores taxas do mercado”, gaba-se o sócio de um estabelecimento que prefere não ser citado. Em algumas cidades do mundo, há esforços para regulamentar essa cobrança, como ocorre em Nova York.

Outro ponto que dá o que falar é a maneira como os restaurantes aparecem na plataforma. Empresários reclamam de que os locais mostrados no topo — e que tendem a receber o maior número de pedidos — são aqueles que já possuem boas vendas e, muitas vezes, têm algum tipo de acordo com as agregadoras. “Pelo que entendi, são os aplicativos que determinam quem vai vender”, queixa-se Carolina Bastos, sócia do Jiquitaia. Depois de um ano oferecendo comida por dois apps, a empresária desistiu do delivery.

“Com meu volume de vendas, não consegui destaque na plataforma, aí ficou difícil crescer. Cansei de ficar mendigando aos caras.” De acordo com agregadoras, que não admitem privilegiar certos lugares, critérios como hábitos de consumo do usuário e avaliações dos consumidores são levados em consideração na hierarquização dos estabelecimentos.

As promoções feitas pelas redes gigantes e “truques” de alguns restaurantes, como criar marcas diferentes nos apps para aparecer mais vezes mesmo vendendo produtos idênticos, também entram na lista de insatisfações. Sócio da rede La Guapa Empanadas e do restaurante Mangiare Gastronomia, Benny Goldenberg considera que questões do gênero são explicadas pelo tempo de mercado. “Como é algo muito novo, nem os restaurantes nem as plataformas sabem ainda como jogar esse jogo de forma saudável”, diz. “Quem depender de constantes promoções não vai sobreviver a longo prazo.”

A relação entre os aplicativos e o restaurante é como um cabo de guerra”, avalia Renata Cruz, chef e fundadora da Foodness, consultoria de negócios gastronômicos.“Quando alguém cria uma empresa para posicioná-la só dentro das plataformas, é importante que entenda os riscos de não ter contato direto com os clientes. O crescimento fica dependente de um terceiro”, sentencia.

Pensando em emancipar-se dos grandes players, empresas vêm lançando seus aplicativos, ainda que muitas delas também operem em parceria com eles. Em geral, acabam tocando vidas paralelas, como o Cabana Burger e o Frutaria São Paulo. Fundada em 2016, a Delivery Direto, parte do grupo Locaweb, cria o aplicativo para mais de 1 800 restaurantes e cobra uma assinatura mensal. “Antes tínhamos de explicar todas as vantagens de ter um canal próprio. Hoje, os empresários nos buscam com a ‘dor’ definida”, diz o diretor Allan Panossian.

Com a evolução do mercado, muitos proprietários passaram a prestar atenção em outro elo importante, os entregadores, a maioria motoboys. Eles podem trabalhar de maneira direta para as casas ou cadastrar-se pelas agregadoras. “A gente tem copa, café, água e banco para sentar”, diz Julio Raw, do Z Deli, que deve estrear um complexo maior em Pinheiros, com mais espaço para os colaboradores. “O delivery é uma tendência que veio para ficar, e em cada local existem adaptações quanto a legislação e norma”, acredita Marco Amatti, da Mapa Assessoria, voltada para negócios em alimentação fora do lar.

Apesar do avanço do delivery — e de novos hábitos, como retirar um cappuccino na portaria do prédio —, o costume de frequentar lugares para comer está longe de desaparecer. “As pessoas vão a bares e restaurantes para se relacionar, para viver, para se realizar humanamente, namorar, paquerar…”, acredita Percival Maricato, presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel-­SP). 

Nem tudo pode ser embalado, em especial o calor humano do atendimento. Mas o negócio da entrega ainda tem chão. “É um mercado jovem que está amadurecendo muito rápido”, diz a gerente de inteligência de mercado Vólia Simões. Não estranhe, portanto, se vir drones ou robôs trazendo a sua comida — esse tipo de transporte está em testes em algumas empresas, como Uber Eats e iFood. Vai parecer cena de filme futurista — tipo aqueles que você vê por streaming.

Fonte: Veja São Paulo

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